sexta-feira, 18 de maio de 2012

Neurastenia (Síndrome de Fadiga )

Neurastenia (Síndrome de Fadiga )

Corresponde à fadiga acumulada ao longo de períodos de duração variável, diante de uma situação de trabalho que não permite recuperação suficiente por intermédio de sono e repouso. A característica principal é a fadiga constante, física e mental, acompanhada de distúrbios de sono, cansaço, irritabilidade e desânimo.

Os fatores de risco de natureza ocupacional são: ritmos de trabalho acelerados, sem pausas ou com pausas sem as devidas condições para repousar e relaxar; jornadas de trabalho prolongadas (excesso de horas extras, tempo de transporte de casa para o trabalho e do trabalho para casa muito longo, dupla jornada de trabalho para complementar a renda familiar) e jornada de trabalho em turnos alternados. Eventualmente pode acometer trabalhadores expostos aos produtos químicos como:
  • Brometo de metila;
  • Chumbo, manganês, mercúrio e seus compostos tóxicos;
  • Sulfeto de carbono;
  • Tolueno e outros solventes aromáticos neurotóxicos;
  • Tricloroetileno, tetracloroetileno, tricloroetano e outros solventes orgânicos halogenados neurotóxicos;


Quadro clínico e diagnóstico
O diagnóstico é feito a partir da anamnese ocupacional e da história de trabalho.
O critérios para o diagnóstico são:
  • Queixas persistentes e angustiantes de fadiga após esforço mental ou de fraqueza e exaustão corporal após esforço físico mínimo;
  • Sensação de dores musculares, tonturas, cefaléias tensionais, perturbações do sono, incapacidade de relaxar, irritabilidade, dispepsia;
  •  Paciente é incapaz de se recuperar por meio do descanso, relaxamento ou entretenimento;
  •  Duração > três meses.
Diagnóstico pode ser incluído no Grupo I da Classificação de Schilling( trabalho desempenha o papel de causa necessária)

Tratamento
Ansiolíticos/hipnóticos(benzodiazepínicos), para controlar ou a moderar os sintomas mais proeminentes, como a insônia e a irritabilidade associados a psicoterapia.

Prevenção
Eliminar ou reduzir os fatores de risco presentes no trabalho, melhorando a organização do trabalho e estabelecendo metas realistas.

CASO CLÍNICO
Identificação:
41 anos, sexo masculino, natural de Ilhéus, Bahia, há 20 anos em São Paulo, com 1o grau completo, casado por duas vezes, 4 filhos, residindo em casa própria e com boas condições de vida.

História de trabalho e relações com o desenvolvimento dos sinais e sintomas:
 Foi encarregado de linha de produção por 10 anos em indústria de vidros, onde trabalhou por 16 anos. Sua atividade ocupacional compreendia o acompanhamento do processo das linhas de produção, tendo o quadro psíquico se manifestado após mudanças organizacionais na empresa, que automatizou o processo produtivo e demitiu trabalhadores, sobrecarregando-o, pois passou a ser encarregado de três linhas. Refere a existência de ritmo intenso, falta de autonomia, falta de reconhecimento em relação ao desempenho, a automação gerando desemprego e modificando o processo de trabalho sem a participação dos trabalhadores. "Falavam: 'Você não está vestindo a camisa da firma...'. E eu sozinho, tocando as três linhas de produção, vendo os amigos sendo despedidos. Eram reuniões só para falar mal, nunca elogiavam. Diziam que iam pressionar até a pessoa não agüentar".

Quadro clínico e discussão do nexo causal com o trabalho:
 O processo de adoecimento iniciou-se por meio de sonhos com o serviço e alterações do sono. O paciente relatava sentir-se "perturbado", tenso pela pressão por produção, aquém das suas possibilidades. Um dia, diante da paralisação de uma máquina, por defeito, o paciente apresentou crise hipertensiva, que tratou com anti-hipertensivos. Por conta própria, procurou também psiquiatra do convênio, que indicou psicoterapia e prescreveu medicação ansiolítica, mas não sugeriu afastamento do trabalho. Após quatro meses, o paciente foi demitido pela empresa, perdendo o direito ao seguimento terapêutico.

Diagnóstico segundo a CID 10: O CRST-SÉ elaborou relatório com diagnóstico de Síndrome de Fadiga (F48.0 - Neurastenia, CID 10).

Encaminhamento dado ao caso pela equipe de saúde mental:
Não houve reconhecimento do relatório pela Previdência Social, que negou o fornecimento de auxílio-doença. O trabalhador recebeu o seguro-desemprego e acionou a empresa em processo de reintegração, sem resultado. Após a demissão o quadro de fadiga melhorou, encontrando-se o paciente atualmente em boas condições de saúde, mantendo o tratamento psicoterápico no CRST.

Referências:

Ministério da Saúde do Brasil, Organização Pan-Americana da Saúde. Doenças Relacionadas ao Trabalho:Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde.Brasília:2001.

Glina DMR, Rocha LE, Batista ML, Mendonça MGV. Saúde mental e trabalho: uma reflexão sobre o nexo com o trabalho e o diagnóstico, com base na prática. Cad. Saúde Pública. 2001;17(3):607-16 

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